Organização do 1º Workshop de Restauro de Lameiros

É do conhecimento técnico e científico, a compreensão que o comportamento do fogo varia com a meteorologia, o tipo de vegetação e da gestão resultante da actividade económica ou de conservação que possibilita essas pequenas perturbações na vegetação das terras marginais de montanha.

Nos últimos incêndios no Verão de 2024 e 2025 na Serra do Alvão, que afetaram a área dos baldios (monte/terras marginais), verificámos que o solo gerido com recurso ao pastoreio e ao fogo prescrito (pastoril e técnico) recuperou mais rápido e com maior produtividade (com menos perda de solo e matéria orgânica) que as áreas de matagais sem gestão e sem interferência do pastoreio doméstico e selvagem.

Ora nas terras agrícolas destas paisagens, zonas de aluvião em torno das aldeias, terras que conhecemos como Lameiros, com solo mais arejado e com grandes quantidades de matéria orgânica, as perdas físicas e químicas da estrutura do solo pela passagem do fogo no Verão, são catastróficas e prejudicam em décadas o legado geracional da actividade pastoril destas terras em actual declínio demográfico.

Os incêndios, por mais ou menos frequência periódica, percorreram durante décadas as áreas marginais (baldios), o monte das comunidades rurais. Com a actual frequência temporal destes incêndios e as actuais estratégias de prevenção e combate, verificamos que o fogo no Verão começa a invadir as terras agrícolas, património de uma riqueza ecológica e cultural imensuráveis para a realidade das comunidades e paisagens montanhosas do Norte do país.

Foi com esse sentido de urgência em mente e com o propósito de comunicar ao público estas evidências resultantes do trabalho do projecto, que no dia 15 de Outubro organizámos o 1º Workshop de Restauro de Lameiros em Alvadia, no lugar de Lamas. O workshop foi conduzido pelo criador Avelino Rego e acompanhado pelos membros da equipa do projecto, os professores do IPB Jaime Pires e Carlos Aguiar. Contou com a presença em peso da equipa técnica local e regional do ICNF e com parceiros do projecto da área florestal e turística.

O programa do workshop consistiu da visita a três parcelas distintas: um Lameiro afetado pelo incêndio de 2025; um Lameiro restaurado após o incêndio de 2024; por fim, um Lameiro afetado pelo incêndio de 2024 mas sem quaisquer trabalhos de recuperação. Em cada um dos locais, o criador Avelino Rego explicou aos participantes todos os cuidados que teve na vigilância do incêndio de 2025 e estratégias de supressão de fogo que utilizou para diminuir as perdas de produtividade, as operações efetuadas ao longo do ano nos Lameiros que foi recuperando e os cálculos das perdas de solo e rendimento consequentes desse trabalho e do poder destrutivo do fogo nestas terras. 

Os professores Jaime Pires e Carlos Aguiar, apoiados nos relatos dos criadores e pastores de Alvadia, destacaram o foco e a urgência das intervenções de prevenção e combate das entidades responsáveis pela gestão do território, que devem dar prioridade a operações para salvaguardar e restaurar os sistemas hidrográficos naturais e de irrigação culturais (o trabalho centenário das comunidades rurais) do território, que permitem a retenção e distribuição de água nas várias altitudes do perfil da serra e maior disponibilidade de água nos Lameiros durante o Verão, que tornará o solo menos vulnerável à passagem do fogo.